Quinta-feira, 27 de Julho de 2006

Suburbia Play Time

Viver num Subúrbio é como viver em caixas. Aqueles que se lançam na diáspora diária, numa autêntica peregrinação de sobrevivência em direcção ao centro (porque há sempre um centro) não lhe podem chamar outra coisa que não prisão. Mas para aqueles que nasceram nos subúrbios a visão é outra. Há hoje toda uma geração de filhos do subúrbio, a adaptados e inadaptados a ele, com toda a sua experiência completamente moldada pela particularidade de aqui viver. Os primeiros amigos, o primeiro beijo, o primeiro assalto. E as expectativas, proferidas em voz alta por entre o fumo adocicado, buscam inspiração nas luzes da noite, no rugir dos pesos em asfalto e metal. A verdadeira corrente sanguínea de tudo isto. À noite o tungsténio e o néon brilham mais que as estrelas e a lua continua a oferecer-se de vez em quando laranja, como em qualquer outro lugar.

Há algum tempo que vejo esta paisagem com olhos de quem apenas volta e não permanece. E talvez porque estou distante, aos meus olhos surge-me o único de tudo isto. O subúrbio não e o medo, não é o desprezo, e não pode ser o nojo. O subúrbio não é um, são vários.
Se calhar viver num Subúrbio é como viver numa caixinha. Uma caixinha de espelhos como aquelas que se fazem rodar na mão, e que por cada vez que por ela se espreita uma nova paisagem se deixa surgir.
 
GII Costa
 
Pérolas
 
A loucura da normalidade. No tempo de uma viagem a viagem do tempo. E passaram cinco, dez, vinte, trinta... minutos? Anos. Onde descerei? As portas não se abrem? Conchas gigantes amontoam-se no areal de sapatos cheio de gente-grão-de-arela (também). Dir-se-iam: ostras.
Walkman no ouvido ouço a cantiga "podes encontrar as ostras mas nunca terás as pérolas". Canto canto... Mas sei: olhando o brilho de olhos concretos, janelas secretas, sei de uma pérola. Como menino que diz sei de um ninho. Pérolas escondidas, já não ouço a cantiga, muitas pérolas que brilham multo e escrevem e tocam pianos e violinos e olham estrelas e lêem palmas das mãos e riem até fazem multo amor até filhos lindos! Pérolas na concha fechada. Concha que se descobre de repente, fragmento de vida imensa, particular do cosmos... Comboio puxado pelo cordel, chuchuchu, nas mãos-criança de todos nos. Suburbia Playtime...
 
Rui Mário
Rio de Mouro, 13 de Maio de 2005
 
 
 
 
São flores suburbanas que nascem por entre as pedras das calçadas. Sob o betão cinzento há sementes esquecidas que esperam para germinar. Deixa o sol entrar e bebamos juntos o seu amor, canto à paz. Se ao menos voássemos… Só um puff e saímos daqui… bem, as asas temos. Neste nosso subúrbio onde nascemos, crescemos e vivemos, espreita-nos a Lua por entre dois blocos de betão armado. E a nossa única janela e o seu sorriso ainda nos diz que o amor pode vir a ser, novamente, a palavra de ordem. Em cada esquina um encanto, um aceno e, felizmente, ainda há flores coloridas nos canteiros. São tristes aqueles que não reparam nelas. Loucos os que falam delas ao jantar. Uma página negra… um espaço negro… uma negritude intensa em todos os cantos, sítios, habitações… um vazio constante… Suburbia. Por acaso não tem este modelo 38? Ou 37, 39, também serve… desde que seja confortável. Se ao menos existisse o meu próprio número. Tantas marionetes em tantas caixinhas de fósforos… Tão coradas, tão felizes, tão sorriso de pau. É preciso sonhar debaixo do cimento sufocante. Aspirar e ascender às mais altas nuvens do céu, e aí encontraremos a luz que nos guia. Oh bailarina de dedos de betão… Tonturas de mel dourado… tanta sofreguidão nesse teu olhar. Qual é a música que o cimento nos dá? Pequenas cerejas com um delicioso brilho vermelho, envolvem as tépidas manhãs suburbanas. Caminhamos alucinados em ondas de desgraças e solidão num mundo que, obstinadamente, recusa a alegria da vida e a verdade do Amor. O reino da Alma é o Amor, o reino da terra é vida de subúrbio, o reino dos Céus é transcendência. E quando caminharmos pelo passeio, cinzento só, será para fabricar uma pérola na ponta dos dedos. Segredos cinzentos e brilho. Playtime!
 
Reticências
 
 
Ficha técnica
 
Montagem:
* Fátima Monteiro
* Lurdes Gonçalves
* Manuel Alves
* Rafael Figueiredo
* Rui Mário
 
Montagem de luz:
* Luís Dias
* Fábio Casquinha
* Rui Mário
 
Luminotecnia:
* Daniel Figueiredo
* Sonoplastia: Rui Mário
 
Gravação de sonoplastia:
* Rui Benfeitas
 
Produção executiva:
* Marion Carreira
* Fátima Monteiro
* Lurdes Gonçalves
 
 
Ficha Artística
 
Actores:
* Ana Patrícia
* Ana Penitencia
* Carolina Brelhal
* Inês Pereira
* Joana Borges
* Joana Paulo
* Joao Vicente
* Nuno Pinheiro
* Pedro Manaças
* Rita Saraiva
* Rui Índio
* Sara Costa
* Zé Pedro Santos
 
Encenação:
* Rui Mário
 
Texto:
* Gil Costa
 
Imagem:
* João Vicente
 
Vídeo:
* Adriadne Freitas
* Luís Dias
 
Actores vídeo:
* Inês Pereira
* Daniel Figueiredo
 
Voz Divina:
* Mizé
 
Gravação de voz:
* Nuno Bento
 
Desenho de luz:
* Rui Mário
Agradecimentos:
* Teatro Tapafuros
* Centro Paroquial de Rio de Mouro
* Conselho executivo da Escola Secundaria de Leal da Câmara
 
Professores responsáveis:
* Lurdes Gonçalves
* Fátima Monteiro

 

 

 

Maio de 2005


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